Música e religião

As religiões tradicionais africanas e a música

 

Na África, o canto sempre foi associado a todas as circunstâncias da vida : nascimentos, lutos, jogos, preces, trabalho, guerras, amor… A música está presente em todos esses momentos-chave da vida social dos povos, não só como vetor participativo nas reuniões da comunidade, mas também como um canal informativo sobre o conteúdo dessas reuniões.

OBS : Este artigo se encontra integralmente em francês no AFIAVI mag. N° 30, on line, no site : www.afiavimag.com Cet article est dans son intégralité en français – Afiavimag. N° 30, on line, sur le site : www.afiavimag.com

A associação dos termos música e religião na África é, a priori, de valor informativo.

O uso da música pela religião e a procura de inspiração em terreno religioso através da música não necessitam mais ser demonstrados. Ha séculos a relação entre esses setores é tão próxima que dificilmente acreditamos que um possa ter existido sem o outro. Com exceção do Islã que levanta eternamente uma discussão sobre o lugar da música na prática propriamente religiosa, música e religião parecem formar um casal homogêneo.

O termo « música-sacra » sempre é um termo genérico que engloba confusamente tudo o que se canta e se toca nos lugares de culto. Mas deve-se fazer uma distinção entre o « canto » e a « música » e, na África, entre o canto e o som do atabaque. Em resumo, pode-se dizer que a música religiosa, aquela que tanto pela intenção do autor quanto pelo sentido e objetivo da obra, visa expressar e suscitar sentimentos piedosos e religiosos. Em conseqüência, « ajuda generosamente a religião ».

O ser humano é dotado de uma religiosidade e esta é universal e floresce entre todos os povos. Assim, o nascimento de espontâneos cantos populares de conteúdo religioso faz parte desse sentimento universal. Em princípio, admite-se no âmbito do sagrado apenas as músicas sem conteúdo profano e que não possuam, ainda que de forma aparente, aspectos profanos.

Se esse critério fosse implacável, a música religiosa se reduziria, pelo menos na África, a pouquíssima coisa. O que propomos fazer é lançar um olhar ao mesmo tempo diacrônico e sincrônico sobre as relações que a religião mantém com a música na África.

O extraordinário não deve iludir o que diz respeito à natureza da religião. Além do olhar global que acabamos de lançar sobre todas as religiões, a seguir, vamos, é claro, visitar cada uma delas para ver o elo específico que mantêm com a música.

As religiões tradicionais africanas e a música

Falar de música sagrada a propósito das religiões africanas exige prudência. Alguns preferem só falar de música sagrada na África com respeito às religiões da Bíblia e principalmente com relação ao cristianismo. Assim ela começaria após a colonização. De fato é difícil falar de música sacra na religião tradicional sem precauções.

A primeira seria, qual é a noção de religião tradicional ? Um conjunto de práticas fetichistas e mágicas em torno de objetos feitos por inúmeros homens, uma relação com Deus através dos espíritos dos ancestrais e forças da natureza ou ainda a vida social celebrada no seu desdobramento temporal em estreita ligação com o transcendente ? Ela engloba um pouco de tudo isso.

Mas se aproximarmos nosso olhar, observamos que a religião tradicional africana tem, antes de tudo, uma função social de estruturação e de moralização. Nesse sentido, nem todas as cerimônias tradicionais podem ser separadas do sagrado, ainda que por outro lado conservem um caráter relativamente profano.

Se observarmos apenas certos gestos, como os sacrifícios, por exemplo, a música se insere muito pouco na religião tradicional embora certos sacrifícios se façam cantando em certas culturas, certos povos.

A segunda precaução vem da visão que se tem do sagrado e do profano. Entende-se por « sagrado » uma relação explícita com o religioso, raramente se veria a música no campo religioso uma vez que o canto puramente religioso é raro nas práticas religiosas. No entanto, não se pode negar que já existem ritmos puramente sacros nos tambores (atabaques).

Pode-se alegar igualmente que esses ritmos pertencem ao repertório da música « profana ». O que também é verdade.

Como para todo o resto seria judicioso estabelecer uma separação radical entre os dois espaços que, na maioria dos povos africanos, se justapõem e interagem. Isto dito, tentemos ver a relação que mantêm as religiões tradicionais e a música.

Na África, o canto sempre foi associado a todas as circunstâncias da vida : nascimentos, lutos, jogos, preces, trabalho, guerras, amor… A música está presente em todos esses momentos-chave da vida social dos povos, não só como vetor participativo nas reuniões da comunidade, mas também como um canal informativo sobre o conteúdo dessas reuniões.

Entre vários povos, a música tradicional é tão diversificada que cada ritmo vem impregnado de um valor simbólico. Os tambores não convidam apenas a dançar, eles falam e são escutados. Assim, numa ocasião festiva como o casamento ou o nascimento de um bebê, os primeiros sons dos tambores o anunciam. Sabe-se também quando se trata de um falecimento. A música anuncia igualmente as etapas do desenrolar das cerimônias.

Entre os Moba do Togo, por exemplo, todas as etapas de um cerimonial funerário, do anúncio do falecimento ao enterro e todas as outras manifestações que se seguirão até o fim do luto, são pontuadas por ritmos diferentes que anunciam o significado. Quando chega a hora da lavagem do cadáver todos ficam a par através dos tambores. É a mesma coisa para as cerimônias de iniciação, de casamento, de sacrifício, das primícias… Pode-se acompanhar assim, à distância, todas as etapas de uma cerimônia tradicional. Portanto, a música ocupa um grande espaço nas práticas tradicionais e é por esse viés que ela se relaciona com as práticas religiosas. <br< <br= » »>Aqueles que restringem a religião tradicional africana a um conjunto de práticas fetichistas de caráter diabólico, retirando-a do campo social que ela estrutura, verão efetivamente a música desempenhar apenas uma função lúdica.

Não existe religião tradicional africana fora das cerimônias tradicionais que ritmam a vida social e o tempo antropológico.

Fora desse quadro geral, faz-se necessário invocar o caso particular de alguns povos entre os quais a música não só acompanha o cerimonial mas faz parte integrante das diferentes etapas do desenrolar dessa cerimônia. É o caso, por exemplo, das cerimônias « atigali » e « blekètè » no Togo e do vodu nos países costeiros do Golfo do Benin. É o ritmo dos tambores que chama os feitiços ou espíritos para que tomem posse das pessoas através das quais vão se manifestar (« vodussi »), ou vão incorporar.

Desse momento em diante, instala-se uma espécie de ambiente eufórico em que o espírito penetra a pessoa de sua escolha provocando-lhe um violento transe. Durante as cerimônias do vodu, os deuses se manifestam, através da dança, no momento do transe e na incorporação.

A dança e a música possuem uma função decisiva na configuração simbólica da conexão com a divindade. A dança é a base da relação física entre o homem e a divindade. Durante a dança cerimonial, um processo de conquista-recuperação do corpo se instaura e o ser humano cessa de ser o proprietário. Esse processo se realiza através do atabaque, a fim de que as divindades venham se encarnar nos corpos dos fiéis. Cada ritmo do atabaque deve corresponder a um Deus bem preciso. A dança aparece então como meio de comunicação com os ancestrais e os deuses.

Entretanto, seria falso pretender que toda a música tradicional é sagrada. À exceção dos sons e ritmos que só podem ser tocados em circunstâncias especiais, existe a música de caráter puramente lúdico que se intromete simplesmente (e que não ofusca ninguém) nas cerimônias tradicionais. Ela se distingue por seu caráter festivo e seu convite à dança. Aliás, foi essa característica que a levou a adotar certos ritmos reservados às ocasiões religiosas nos meios festivos. Ritmos que antes eram estritamente reservados às cerimônias religiosas, hoje possuem uma dupla função. Essa dupla função traduz a observação que fizemos anteriormente sobre a superposição, e até a homogeneidade dos espaços.

Religiões estrangeiras e religiões tradicionais : encontros e influências.

Se a música tradicional africana é uma música sacra sui generis, a música sacra cristã e muçulmana nasceu do encontro entre a tradição africana e a liturgia religiosa. A evolução histórica da música sacra é indissociável da história dos povos. Ao passo que a evangelização da África subsaariana data de vários séculos, a música sacra cristã propriamente africana só data de algumas décadas. A relação da música africana com a religião, que hoje somos capazes de decifrar, remonta à época da descolonização. As mais antigas manifestações musicais datam do início dos anos 1970 quando, para homologar a reforma litúrgica iniciada pelo Concílio, certas igrejas da África ousaram introduzir na liturgia cantos, ritmos e até danças rurais.

Mas antes dessa obra de aculturação e enquanto o latim ainda era a língua oficial da Igreja Católica e a língua litúrgica por excelência, os missionários viram-se obrigados, por razões de evangelização e pastoral, a traduzir certos cantos litúrgicos existentes em línguas locais. Alguns foram obrigados a traduzir os cantos de sua própria língua materna. É o caso dos missionários alemães que traduziram a maioria dos cantos alemães em “éwé” do Sul Togo, adotados mais tarde como língua litúrgica. A partir dos anos 1930, os franceses fizeram o mesmo com as diferentes línguas do Norte. Antes de Vaticano II e apesar do cristianismo se adaptar às realidades locais dos diferentes povos, o catolicismo tentou cuidadosamente afastar todas as tradições africanas consideradas, por ignorância, diabólicas.

Assim, no início dos anos 1970, foi a viagem do Papa Paulo VI a Kampala que incitou os africanos a “serem autenticamente cristãos e autenticamente africanos”, que uma série de iniciativas foram tomadas no sentido de compor cantos litúrgicos nas línguas locais dos povos. Assim, os cristãos africanos não procuraram inventar um novo gênero. Eles se limitaram em retomar melodias populares existentes e lhes deram um novo conteúdo. Os cantos religiosos e toda a música religiosa eram calcados nos cantos tradicionais. As partes festivas da liturgia retomaram as melodias alegres da música tradicional e as partes meditativas, as melodias específicas da religião tradicional. No fim de contas, a música tradicional carregou e alimentou a música cristã. Ainda hoje a música sacra cristã não pode criar seus próprios ritmos. No campo, por exemplo, as canções ainda são muito tradicionais. No entanto, as melodias se afastam cada vez mais das melodias tradicionais, sobretudo pela influência da polifonia, dos corais e do Gospel.

Quanto ao Islã, a África não tem uma especificidade. A arte sacra está sempre em debate entre os muçulmanos. A música não pode ocupar um lugar preponderante no islamismo como ocupou no seio do cristianismo, por exemplo. Na maior parte dos casos, o uso da música se limita à recitação do Corão que se faz mais cantada do que falada, sobretudo quando está reunida toda a comunidade.

Sem dúvida é por essa razão que a “música religiosa” muçulmana continua dominada pela língua árabe. No entanto, encontra-se aqui e ali o uso de línguas locais nas canções religiosas compostas não como preces em si, mas para ocasiões especiais, como as reuniões dos fiéis, por exemplo. Com efeito, à exceção dos momentos de prece em que o canto propriamente dito ocupa pouco espaço, a maioria dos cânticos religioso-sociais (casamento, circuncisão…) executa cantos religiosos em homenagem ao Profeta. Esses cantos e danças são feitos não por seus valores propriamente espirituais, mas para que realcem o ambiente da circunstância, do evento. São retomados como no caso dos cristãos, nos modelos das melodias e ritmos existentes nas culturas locais, ainda que a influência árabe-oriental seja perceptível.

O Gospel no cruzamento do sacro e do profano

Se as igrejas católicas percorreram um longo caminho para chegar a uma música próxima do fiéis africanos, as igrejas protestantes tiveram menos dificuldades. Elas não só introduziram os instrumentos tradicionais na liturgia a partir dos anos 40, bem como adotaram em seguida a tradição musical nascida da adaptação e reinterpretação dos cânticos protestantes brancos pelos africanos deportados para os Estados Unidos entre os séculos XVII e XIX. Cantos esses que se impuseram em seguida em todo o mundo protestante anglófono.

No Togo, durante muito tempo, a influência foi européia uma vez que os missionários foram primeiramente alemães e depois franceses. Mais tarde o Gospel foi adotado. O Gospel, música do evangelho, que era uma música de recolhimento e cantada originalmente num tom mais emocional, transformou-se no seio das igrejas negras africanas em cantos de celebração, de alegria, de exortação e comunhão entre o pregador (pastor) e sua congregação. O Gospel preservou o lirismo do evangelho que geralmente prega a obediência a Deus e refuta o pecado para obter o reino do céu em recompensa. Mas o Gospel é principalmente um canto de celebração da fé e do amor por Deus. É um canto que se repousa nas vozes de um coral, entoado em uníssono ou conduzido por um cantor principal. As canções são executadas com fervente entusiasmo e uma energia insuflada pela inspiração espiritual. Deixam uma grande margem para a improvisação assim como para as vocalistas em solo. Durante muito tempo, o Gospel ficou confinado nas igrejas. Foi no início dos anos 1980 que as orquestras, ditas cristãs, cantando o gospel, ajudaram a expandir as igrejas independentes. Pouco a pouco, o gospel se afirmou como música popular ao lado da música profana, e que se dança e se canta nas mesmas circunstâncias.

Mas não é porque o Gospel mergulha profundamente nas raízes das tradições africanas que ele foi rapidamente adotado na África. Foi o seu lado definitivamente festivo e ritmado que fez a sua popularidade. Hoje, visto o número crescente de igrejas de “renascimento” e de grupos de preces, pode-se estimar aos milhares o número de orquestras. Muitas delas tocam em cerimônias e cultos nas igrejas e paralelamente se apresentam em lugares menos sacros.

O Gospel saiu progressivamente da igreja, cujo canto religioso popular é interpretado durante as cerimônias dos ofícios, para subir ao palco. Os cantos viraram obras de autores que adquiram glória, poder e benefícios. Eles se servem de certos recursos das músicas profanas e de seus instrumentos também (bateria, metais e até guitarras elétricas). O Gospel song se seculariza rapidamente e se adapta às exigências comerciais num mundo onde o rádio se transforma em ferramenta de difusão. Esta passagem foi igualmente facilitada pelo fato de que os afro-americanos, seguindo os africanos, nunca separaram o espiritual do temporal. Cantos de trabalho (work songs) e de festas tradicionais sempre se misturaram e se nutriram mutuamente. Hoje, o gospel é tão cantado em lugares de culto quanto no palco. É composto tanto por crentes quanto por não crentes e atualmente não é fácil traçar uma linha de demarcação entre a música profana e a música religiosa, sobretudo ao nível do som, da orquestração e da coreografia. Os dois estilos se convergem, usam os mesmos instrumentos, os mesmos acordes, as mesmas raízes. A tendência atual está para o ritmo e para a cadência atraindo o mesmo gestual e o mesmo comportamento aparente. Apenas implantado, o gospel se transformou num sério concorrente da música profana que algumas pessoas vêm em queda de audiência.

Do Togo ao Congo

Há vários anos, um festival é dedicado ao gospel e reúne todos os grandes nomes do gospel africano. A última edição, no Benin, em 2004, mostrou uma vez mais a importância do fenômeno. O Gospel se impôs de tal maneira como música popular que passou a dominar todos os festivais de música africana.

Desde 2002 o Gospel faz parte das diferentes categorias de músicas presentes nos Koras na África do Sul. Em 2003 o Gospel « se convidou » igualmente ao festival de música panafricano em Brazzaville (o equivalente do FESPACO para o cinema africano). Em alguns países, como a República Democrática do Congo e o Togo, a tendência é a generalização. Alguns rostos adquiriram uma envergadura internacional.

É o caso de Makoma, o grupo religioso congolês que se impôs como um dos tenores da música africana atual. Precursor de um gospel moderno, ele segue hoje uma trepidante carreira internacional. Show de fé, Makoma inflama a África e o mundo. O grupo religioso Kora, do melhor grupo africano em 2002, obteve um lugar entre os grandes artistas do continente.

Os cinco irmãos mais o amigo Patrick, todos congoleses, vivem hoje em Rotterdam (Holanda) e enlouquecem a multidão em todos os shows.É o mesmo caso para Dupe Olulana da Nigéria, de Queen Etémé da República dos Camarões, do coral Notre Dame de la Salette de Kouta-Moutou no Gabão, eleito, em 2004, no Koras, na África do Sul, o melhor grupo gospel africano, de Deborah Fraser da África do Sul, de Cindy Thompson : a revelação do gospel ganeano, do grupo Eben Ezer do RDC, de Guehi Leon, aliás, O’Neal Mala da Costa do Marfim e muitos outros. Artistas como Dupe Olulana, da Nigéria, estão no décimo-sexto álbum. O que mostra como a música religiosa vive um sucesso esplendoroso em todo o continente negro.

Cantos religiosos na parada de sucessos !

Deve-se dizer que, para enfrentar essa nova notoriedade e a concorrência, o gospel teve que se abrir a novos gêneros de música integrando cada vez mais animação e vontade de dançar. Quanto à vibração, nada distingue Makoma dos grupos R’n B americanos.

E apesar disso é um grupo religioso. Colar cantos religiosos em  » lingada » no R’n B e no rap, estranha mistura ! É a esse preço que Makoma invade a música africana colocando para escanteio Koffi Olomidé, Méwé, Angélique, Kidjo e outras grandes figuras da música africana. Mas Makoma não existe só para cantar Deus. Também quer – e, sobretudo – convidar as pessoas para dançar para ele ou simplesmente pelo prazer pessoal. E seguramente consegue. O segundo exemplo notável da modernização do Gospel continua sendo o de dois costa-marfinenses

Primeiramente Guehi Leon, conhecido como O’Nel Mala, que em poucos anos se impôs como uma das figuras incontornáveis da cena musical africana. Ele criou um estilo e o chamou de « Afrifusão », gênero musical que se inspira de melodias e ritmos tradicionais que são adaptados à atualidade, moderno em todos os seus componentes : reggae, groove… Em seguida Erick Didier que faz o zouk religioso ! É bem conhecido que o zouk é uma música que canta o amor. O zouk é símbolo de sensualidade. Uma música suave e carnal cuja dança (casais enlaçados) pode ser tórrida. O artista costa-marfinense não canta o amor das mulheres, mas sim o de Deus. Seu primeiro álbum, « Inunde-me » é um sermão original e saboroso que nada deixa a desejar aos zouks clássicos. Uma verdadeira força rítmica, do tipo que nos dá uma vontade incontrolável de dançar. Outro exemplo impressionante (a lista não é exaustiva) é o do grupo Eben Eze, que adapta o gospel aos tempos modernos através Rn’B, rap, 2 steps (corrente musical de que o artista britânico Graig David é a figura emblemática), se apresenta como artesão do gospel urbano, pimentado e absolutamente contemporâneo.

A orientação atual quanto ao conteúdo mostra, aliás, a tendência à substituição do contexto.

Originalmente, o gospel praticamente extraía sua inspiração da Bíblia. Hoje ele aborda amplamente temas do campo social marcados pelas guerras, crises e doenças.

Como a palavra política não foi aceita por todos, a religião investiu no campo social através da música. Os cantos religiosos denunciam, chamam a atenção, destilam a esperança, consolam e trazem paz.

Se a religião sempre manteve uma estreita relação com a religião na África, nunca esta relação foi tão visível quanto hoje.Isso advém não só forma que o sentimento religioso adotou nos anos 1990, sentimento sempre vivaz, mas que foi exacerbado pelos anos de proliferação de seitas e igrejas independentes. Vem, sem dúvida alguma, do papel da mídia, notadamente das rádios que constituíram uma ponte entre a religião e a música. Vem, enfim, da recuperação que os artistas fizeram de um gênero musical que tendia a se impor no terreno artístico ao mesmo titulo que o Ndombolo, o mapouka, o makossa e outras músicas profanas e de animações africanas.

A música religiosa conhece hoje um verdadeiro entusiasmo. Ela esta à beira de ser a música mais escutada. É programada nas casas noturnas como qualquer outra música dançante, shows e turnês atraem cada vez mais o público, o que não ocorreria com gêneros musicais clássicos.

A força da música religiosa africana reside na sua capacidade de integrar elementos da moda (do ponto de vista do ritmo, orquestração, clips…) conservando a orientação geral : música religiosa. É religioso e por isso merece atenção e conhece o sucesso !

Etienne Damone (Afiavimag)

Tradução : Eugênia Xavier